O Aquario.

No meu retorno ao  Brasil da ultima vez, escrevi sobre “ A volta para casa e o mito da caverna” (clique aqui). O post gerou certa polemica,e foi até assunto de saudáveis discussões . A figura que utilizei para representar “casa” também teve um bom impacto.

Eu e a Bibi passamos a utilizar o termo “aquário” seguidamente entre nossas conversas, e ele definitivamente passou a ter um sentido e fazer parte do nosso “dicionário”.

Então agora, voltando para casa (estou escrevendo do Amapá, minha passagem por Curitiba foi relâmpago), nada melhor que escrever sobre o aquário.

O aquário é ruim? Claro que não, muito pelo contrario. O aquário tem a temperatura controlada, tem a ração favorita dos seus peixes, tem os peixes da família, os peixes amigos. No aquário sabemos (ou achamos que sabemos) onde estão os peixes que não são amigos, e onde é perigoso. No aquário tudo é controlado.

O nosso aquário e a Caverna de Platão têm muitas semelhanças. Ilusão? Talvez não. Digamos que Platão estava errado e as pessoas da caverna corretas. Afinal de contas, a água do aquário é tão água quanto a água do oceano. Mas também não se pode negar que o oceano é maior que qualquer “água”, e que qualquer “água” vai acabar no oceano, seja pelos rios ou pelas chuvas…

A parede de vidro do aquário, a mesma que da proteção aos “peixinhos dourados”, separam a água do oceano. Este vidro espesso, também distorce as coisas de fora do aquário, na mesma proporção que protege.

Não existe nada de errado em viver dentro do delicioso aquário, desde que não se ignore o que esta fora dele, e nunca se esquecer de que o aquário não é representativo. Um dia os tsunamis da vida podem fazer com que os “peixinhos dourados” acabem no oceano, acabando com a temperatura controlada e ração predileta.

Obs- Este post é dedicado as pessoas que nunca saíram do aquário (ou saíram, junto com uma suuper bolha protetora), que são doutores de coisas que não sabem e me perguntaram coisas como:

“vocês foram para algum lugar legal, ou tudo uma merda?”

“Eu nunca faria uma viagem que nem a de vocês”

“viajar para passar mal, to fora…”

“você deveria guardar dinheiro para teu futuro”

 

dentre outras pérolas…

Ilhas Andaman!

As ilhas Andaman pertencem a India. Mas meio que por acaso, pois estao no meio do mar Andaman, localizadas bem mais proximas do Myanmar, Tailandia e Indonesia. Nao ‘e um daqueles paraisos desconhecidos, pois ja ‘e o sexto lugar mais visitado de todo o pais. Florestas, praias e vilas. Infelizmente Andaman esta mudando muito rapido, portanto era uma prioridade para nos. Depois de tanta montanha, foi o lugar perfeito para encerrar a viagem!

nada mau, nao?

Apos o voo ate Delhi, tinhamos definitivamente acabado nossa rota terrestre. Pegamos um aviao  de Delhi para Chenai/Madras, e outro para Port Blair, capital das Ilhas Andaman. Chegando la, seria facil pegar um barco para a ilha de Havlock, principal destino do arquipelogo. Mas nao fizemos isso. A Bibi diz que eu so gosto das coisas se cair uma gota de sangue, entao pegamos um onibus, caindo aos pedacos que iria para a ilha norte. Estrada estreita, nao passavam dois veiculos ao mesmo tempo, portanto sempre que vinha um carro no sentido contrario, boa parte do onibus tinha que ir para fora da estrada, que nao tem acostamento, e claro.

Nao demorou muito para a floresta ficar fechada, muito fechada, praticamente intocada a poucos metros da beira da estrada. Do lado de fora, caia uma chuva torrencial. Paramos num posto de controle, onde existem horarios especificos para seguir viagem, sao comboios organizados e escoltados pela policia local. Estavamos passando por area dos Jawaras, povo indigena que ate hoje vive da caca, pesca e coleta de frutos e raizes. Havia lido no livro do Ibn Batuta que no seculo XIV descreviam a ilha como sendo habitada por canibais. Mas agora era claro que a escolta era para proteger eles de nos. Uma placa orientava para nao jogar comida, tirar fotos ou tentar interagir com os jawaras. E uma tentativa nobre, mas fadada ao fracaco ao longo do tempo. Logo serao que nem os indios brasileiros, com celular e shorts da addidas. Dificil proteger uma cultura com a pressao da modernidade ao lado. Ainda vimos alguns jawaras perto da estrada, o primeiro foi o mais marcante, passando com seu arco e flexa, totalmente nu, e olhando com cara de quem nao estava entendendo nada para o comboio que passava.

A estrada ‘e longa, e existem outras areas de protecao, onde a cena do comboio/escolta se repetia. Pegamos alguns pequenos ferris para atravessar canais entre as ilhas, e 10 horas depois, e embaixo de muita chuva, chegamos a Mayabunder. Nao tenho como descrever muito Mayabunder, alem de ser uma pequena vila, bem isolada, na beira de manguesais. A chuva estava tao intensa, que nao pudemos fazer nada nos arredores, nao tendo visitado nenhuma praia ou ilha. Sabiamos que setembro era o ultimo mes das monsoes, mas em tempo de mudancas climaticas isto pouco importa. Nos contaram que este ano tem chovido desde janeiro, praticamente sem parar. Faltava so 20mm de chuva para bater o record historico de chuva no mes. Chegou a dar um desespero, pois a chuva era grossa, tempestade tropical cont’inua, ar umido, pareciam que nao ia passar. Aproveitamos para desfrutar da culinaria local. Se em nossa ultima viagem para a India so comemos comida vegetariana, desta vez abusamos dos deliciosos frutos do mar.

onibus de luxo!

Como uma medida de desespero, fomos para a ilha norte, a algumas horas dali. A principal “cidade”, Diglipur, nao tem nada de mais, a nao ser o fato de existir transporte para a vila de Kalipur. La existem dois “resorts”. Um decadente controlado pelo governo, e outro com diversas opcoes de cabanas/chales, e um otimo restaurante. Nao nos surpreendemos em saber que eramos os unicos hospedes. A chuva aliviava pouco, mas tinhamos um cardapio inteiro com deliciosos peixes e camarao com temperos super diferentes. Era o lugar perfeito para fazermos o encerramento da viagem, organizar a prateleira das ideias, rever os conceitos apartir das novas experiencias, e fazer planos para a volta para casa. Nos surpreendemos quando a chuva parou, e apareceu um sol timido entre as nuvens. Mas ja era o sinal que poderiamos ir para a praia. Praia isolada, com muitas arvores e uma ontanha que ‘e o ponto mais alto de todo o arquipelogo. Aquela vista da floresta com “nuvens” evaporando, mostrava que a chuva deveria continuar nos proximos dias. A humidade era grudenta, mas a agua do mar refrescante. Com os raios de sol o verde comecou a aparecer, aumentando o clima do lugar.

chuva dando uma tregua

Era uma praia so para nos, com uma ilha bem na frente, e corais espalhados por boa parte da costa. Os dias de sol e chuva se alternavam, ou sera que eles se alternavam ao longo das horas, ja que choveu quase todo dia. Mas quando dava, saiamos correndo para a praia, no nosso cantinho onde podiamo entrar no mar sem pisar nos corais. No dia que saiu sol forte, resolvemos ir fazendo snorkling ate a ilha que ficava em frente da praia, so seguindo os peixes coloridos e desviando das agua-vivas azuis, que insistiam em nos “atacar”.

Uma semana ja tinha se passado, e para completar a missao, faltava conhecer as vilas da regiao. Na verdade nao tem uma vila em si, e uma regiao rural, com as propriedades bem espalhadas. Caminhamos pela “estrada” principal, beirando as plantacoes de arroz que pareciam fosflorecentes de tao verdes. Bufalos se banhavam em pocos de lama, e saris coloridos contrastavam com a mata verde escura. Existem canais laterais que levam ate as outras casas da vila. O caminho ‘e calcado, pois seria impossivel transitar por eles depois de tanta chuva. Conversamos com algumas pessoas, observamos a vida passar lentamente na regiao, o pescador voltar com o jantar, a menina impecavelmente arrumada para a escola tirar os sapatos e meias para caminhar na trilha enlamacada. A Bibi olhava para tudo aquilo fascinada, e eu pensava comigo com “um pouco de sangue” as vezes vale a pena…

estrada principal

Cardapio do restaurande zerado, pesseios e praia aprovados, tinhamos que pensar como sairiamos dali. O ferry que ia ate Port Blair cancelou escala, o onibus que saia ainda de madrugada estava lotado devido ao festival Durga Pujja que estava para chegar, entao arriscamos ir ate o meio do caminho, na cidadezinha de Rangat, de onde poderiamos pegar um ferry direto para Havlock no dia seguinte.

Horas na estrada num onibus daqueles e ao chegar descobrimos que os horarios do ferry tinham sido alterados, e que nao teria transporte no dia seguinte. Arranjamos um lugar para dormir, e saimos para comer no mercadinho central. Estavam todos se preparando para as festividades e tudo estava super movimentado. Comemos num restaurante estilo pe sujo, e novamente veio aquela frase: como pode um lugar destes ter comida tao boa? O preco nao vou nem falar. Se os peixes e camarao ja estavam baratos, agora se aproximava do “de graca”.

Mas a vida nao estava facil, os onibus estavam todos lotados, e mesmo acordando pouco depois das 4 da manha, nao conseguiamos transporte. Tentamos carona, mas o jeito foi pegar um jipe, fazendo um acordo de que se alguem subisse pagariam a passagem para nos.

Passamos pelos comboios, vimos mais jawaras e aquele visual fantastico de floresta tropical, que me lembrava o interior da Indonesia. Chegamos a Port Blair e conseguimos conectar com o ultimo ferry que ia para Havlock. Duas horas e meia depois estavamos la. A’i as coisas foram mais faceis. Isto nao quer dizer que existe uma super infra-estrutura, existem dezenas de “resorts” um ao lado do outro, mas acho que 80% sao cabanas bem simples, feitas de bambu.

elefantas carregando troncos de arvores

Escolhido o melhor cantinho, com praia fantastica na frente, largamos as mochilas. Apesar da praia fantastica da frente, as que ficavam nos arredores eram ainda mais belas. Alugamos uma scooter para percorrer todos os caminhos possiveis, ir para todas as vilas, ver pobres elefentes trabalhando carregando troncos de arvores, ver o por de sol na “praia 7” e descobrir uma praia so para nos.

melhor nem saber...

na frente da nossa pousada

Muitas pessoas tinham nos avisado que, dependendo da epoca do ano, Ravlock podia  ficar cheia demais. Por nossa sorte nao foi o caso. Existiam alguns estrangeiros, inclusive fizemos algumas amizades, mas o maior numero de pessoas eram turistas indianos, que aproveitavam o feriado do festival para viajar. O sol finalmente veio para ficar, e passou a chover super pouco, so em horas que nao atrapalhava.

festival

Aproveitamos muito, e ate paramos de reclamar que estavamos para voltar, e passamos a relembrar historias e agradecer por ter podido fazer uma viagem tao fantastica! Ha, sem falar do restaurante delicioso que fomos todos os dias.

Com aperto no coracao, pegamos o barco para Port Blair, de onde pegariamos voo para Calcuta e depois Delhi. Em Delhi foi aquele clima de enterro, pois alem do fim da viagem, eu e a Bibi nos separariamos por algumas semanas. Eu voltaria para o Brasil, e ela ia para Rishckesh para mais uma temporada de ashram…

Indo para o moderno aeroporto de Delhi lia a reportagem de que quem ganhava 32 rupias (0,64 dolares) por dia na India nao era considerado pobre, e olhando para fora da janela centenas de pessoas dormiam nas ruas ou nos seus rickshaws. A India era um pais de contrastes. O mesmo nao podiamos falar da nossa viagem, que foi perfeita do inicio ao fim!!!

O fim da rota da seda

Pois e, chegamos em Delhi, e assim terminava a nossa rota da seda. Na verdade nunca existiu uma unica rota da seda. A rota da seda eram diversas rotas comerciais utilizadas entre o ocidente e o oriente. Muitos desses caminhos são utilizados ha muito, mas muito tempo, e as proprias condicoes geograficas e climaticas foram moldando eles.

O periodo aureo destas rotas comerciais aconteceu na epoca do imperio mongol. O maior imperio de toda a historia, tinha controle sobre toda a regiao que passava a rota, tornando segura a viagem da Europa para China e/ouIndia, e vice-versa. Constantinopla era ligada a Xian (China) por uma destas rotas e a Delhi (India) pela outra. Não por acaso, depois de viajarem metade do mundo, Marco Polo ficou trabalhando na China, e Ibn Batuta na India.

Os europeus levavam ouro, marfin,joias, figos e buscavam porcelana, cha, laranja, pessego, polvora, especiarias (muito utilizadas para preservar os alimentos) e seda, e claro.

A rota da seda alem de produtos, passou a levar ideias, cultura e arte, em ambas as direcoes. O papel moeda foi inventado na China, por exemplo.

Ao contrario do que se imagina, os europeus não eram mais sofisticados que estes povos, muito pelo contrario. Os europeus sempre tiveram concorrentes a altura, que possuiam conhecimentos mais refinados de ciencias, tecnologia, dentre outras coisas. So após a revolucao industrial ‘e que os europeus passaram a avancar mais rapidamento.

O declinio da rota da seda aconteceu por diversas rasoes. O colapso do imperio mongol, a chegada do islamismo na regiao, e principalmente, a descoberta da rota maritima ate a India pelos portugueses. A rota da seda não era mais importante comercialmente, mas sempre teriam os que prefeririam viajar pelas diversas culturas remanescentes em vez de ver mar por todos os lados (ou ar, no caso dos avioes agora). E nos eramos uns destes!

 

 

A diversidade da India!

A India nao pode ser vista como um unico pais, mas como varios paises juntos. Cada estado e infinitamente diferente do outro. Nesta viagem mais do que nunca pudemos observar isto.

Era a terceira vez que viajava pela India, ja tinha passado alguns meses no pais, mas ao chegar na parte velha de Amritsar, me perguntei: Porque mesmo que eu gostava da India? E isto que o estado de Punjab era um dos que eu mais gostava, devido a deliciosa comida e hospitalidade do povo. Mas no primeiro momento o que sobressaia era um barulho ensurdecedor de buzinas, lugar cheio de gente e imundo. Não parecia ser a mesma Amristar que eu estive no ano passado. E não era, pois da outra vez, fiquei todo o tempo dentro do templo, inclusive hospedagem e refeicoes. Passamos uma noite infernal com muito barulho, e no dia seguinte nos mudamos para um outro lugar mais calmo. Paz mesmo so conseguimos no Golden Temple. O Jony e Marco adoraram, foi um bom lugar para fechar a viagem deles. Era a primeira vez da Bibi ali tambem, e fomos todos comer no movimentado refeitorio do templo. Bandeijao de qualidade, so o Jony que não encarou pois estava meio mal do estomago.

O Golden Temple e fantastico, não e um lugar para ser visitado, ‘e para ser vivido. Sentar na beira da “piscina”, ver o entardecer e aprender mais sobre a cultura local com uma das pessoas que vai acabar parando para bater papo com voce.

Nos despedimos dos “Idis”, que pegaram um trem para Agra, onde visitariam o Taj Mahal e voltariam para Delhi, para o voo de volta ao Brasil. No nosso dia de folga fomos tentar conhecer uma regiao da “India rica”, mas a rua tao falada, apesar de lojas internacionais, era imunda e cheia de vacas. Pelo menos a Bibi pode ir num bom salao.

Desde que saimos para viajar, alem da familia (que veio), muitos amigos falavam que iriam nos visitar. Muitos gostariam, outros falavam por falar. Mas a Jami, grande amiga nossa, não se importou com uma recem transferencia pela empresa para São Paulo, mudanca de apartamento, e mesmo assim veio nos encontrar.

Ela nunca tinha feito uma viagem do nosso estilo, muito menos para algum lugar parecido com a India (se ‘e que existe). Fizemos questao de busca-la de autorickshaw e foi muito legal ver a cara dela pelo caminho ate a cidade. Desde o inicio ela já quis conhecer as comidinhas, andar pelas ruas secundarias, e tive certeza que seria uma otima companhia de viagem. Se emocionou no Golden Temple, fez amigos, foi com a Bibi na cerimonia da fronteira (desculpem mas eu sou Jula, Jula Pakistan!haha).

Qualquer viagem pela India não esta completa sem uma experiencia com os trens. Pegamos um trem para Jamu, capital de verao do estado Jamu & Caxemira. E chamada de cidade dos templos. Se em Amristar a religiao predominante era dos Sikhs, em Jamu ‘e o Hinduismo. Na frente dos templos tinham grandes barricadas, com arame farpado e exercito. O clima não era muito amistoso, e recalculando os dias que a Jami ficaria na India, decidimos não ficar muito tempo ali. Uma forte tempestade a noite, queda de energia, e trovoes que acordaram a Bibi, achando que eram bombas haha. Demos umas voltas,comemos num gostoso restaurante, e estavamos preparados para encarar a estrada ate Srinagar.

Estrada longa, cheia de curvas e temperatura caindo com o pasar do tempo e com a subida. Muitos Gujards no caminho, povo pastor nomade, que ocupava parte da estrada com suas criacoes.

Depois de muitas horas de viagem, entramos num tunel estreito, escuro, com 2,5 km de comprimento. Logo na saida do tunel uma placa: “Bem vindos a Caxemira, o paraiso na terra.” Ao fundo uma vista para o magnifico vale, com arvores, plantacoes, flores e rios. Espetacular!

Passamos por pequenas vilas, e já observamos mulheres com veu cobrindo o rosto. Agora estavamos em regiao muculmana.

Chegando em Srinagar, nosso plano era de ficar num hotel uma noite, para no outro dia bem cedo ir procurar e comparar os barcos-casas do lago Dal. Acontece que os caxemirianos são otimos negociantes (para o lado deles) e acabamos cedendo de ir conhecer um barco-casa oferecido, e nos demos super bem!

Os barcos de luxo ficam bem perto da avenida, tem bastante barulho, alem de insistentes vendedores passando de shikara (canoa local) oferecendo coisas. O nosso era meio decadente, mas bem acolhedor. Ficamos mais afastados, num lugar tranquilo, para dentro do lago, cercado de flores de lotus.

Ao contrario dos barcos de Aleppey, que navegavam todo o tempo, os de Srinagar ficam ancorados. Para se conhecer o lago e todo o “waterworld” so de shikara. Pensamos em fazer um passeio curto, no maximo de duas horas, mas foi tao legal que nos empolgamos, e ficamos umas cinco horas explorando os canais, passando por mercados flutuantes, as vilas sobre palafitas com o dia a dia sobre as canoas. Um passeio fantastico, belissimo!!! Existem shikaras simples, mas muitas delas sao todas preparadas para passeio, com almofadas e encostos. Tem uma infinidade de shikaras por todo o lado e quase dois mil barcos-casa. A regiao ja foi muito turistica, mais devido ha algumas guerras e frequentes conflitos, as pessoas passaram a ter medo de viajar por la. Este ano teve um boom de turismo, dos proprios indianos, e saiu reportagem ate no NY Times (clique aqui).

flores de lotus

Shikara

Barco casa

equipe!

A Caxemira e mais uma daquelas questoes polemicas. Na divisao do subcontinente indiano, os ingleses previam so dois paises, um hindu (India), outro muculmano (Paquistao). Nisto Punjab (Sikh) ficou chupando dedo, e Caxemira tambem. A Caxemira era de maioria muculmana, mas tinha um Maraja hindu, colocado pelos ingleses. Na epoca da divisao, ele ia optar pela India (talvez ate tentaria uma impossivel independencia), e por isto foi invadido pelo Paquistao. No final da historia ficou 1/3 com o Paquistao e 2/3 com a India. No tratado de paz da ONU, teoricamente a populacao que deveria ser ouvida para definir quem teria direito sobre a Caxemira. Claro que a India nunca aceitou esta decisao.

Isto nao quer dizer que todo mundo gostaria de ficar com o Paquistao, muito pelo contrario. Conversando com um estudante universitario, que participa de protestos pacificos, ele me disse que 70% dos caxemiris querem ser um pais independente ( e acreditam que um dia vao conseguir), 25% querem ficar com o Paquistao (a maioria destes sao de pequenas vilas) e apenas 5% querem ficar com a India (ricos comerciantes de olho na economia indiana).

A India esta apostando muito na ocupacao da Caxemira, e ‘e facil de ver. Na estrada ate la e muito comum se ver comboios de caminhoes com milhares de soldados. Muitos postos de controle e soldados por toda a cidade. Isto quebra um pouco o charme do lugar, mas existem algumas “ilhas” de tranquilidade.

A cidade velha de Srinagar ‘e uma delas. Tranquilidade por causa da ausencia do exercito, nao pela falta de bagunca! O exercito nao vai muito la, pois os locais se reunem e jogam pedras neles, e sempre da confusao, muitas vezes tomando grandes dimensoes. As ruas sao muito estreitas, e as casas possuem uma arquitetura unica. Muitas delas com sacadas em madeira toda trabalhada. As mesquitas tambem tem um estilo proprio, sem minaretes, e com o telhado lembrando estupas budistas. Fomos diversos dias nos perder pelas ruas. As grandes atracoes, nao tem endereco certo, elas sao as cenas do cotidiano. Lojas de especiarias, carneiros sendo pendurados e carneados no meio da rua e por ai vai. Em volta da mesquita principal aquela sensacao de que o tempo parou. Diversas pontes cortam a cidade e dao uma vista fantastica para as construcoes.

Notamos um templo hindu todo cercado por arames, e ao olharmos curiosos por algum tempo, soldados nos convidaram para entrar. Fizeram uma base militar ali. Estrategicamente protegiam o antigo templo, e controlavam uma ponte bem em frente, que dava acesso para o miolo da cidade velha.

Outro grande refugio sao os jardins Munghals. Uma dinastia descendente dos mongois-persas, que dominou boa parte do sul da Asia. Existem diversos jardins, todos floridos, muitos deles com vista para as montanhas ou para o lago Dal.

Jardins

Na noite anterior a nossa partida, mudamos os planos. Fomos convidados para um casamento e nao poderiamos perder esta oportunidade. Na verdade tiveram tres casamentos bem perto da nossa casa- barco. Os casamentos demoram dias, e fomos acompanhando os barcos chegando com as decoracoes, os mais de 30 carneiros mortos, e todos os vizinhos passando horas preparando a comida. Musica ja de dia, a noiva tendo sua mao pintada com henna, muita comida e festa ate de manha! Bem de madrugada distribuiram cobertores e todos ficaram largados no chao enquanto um homem vestido de mulher fazia um show de musica e danca, brincando e provocando os convidados estilo Nei Matogrosso. Nos divertimos muito quando ele tirou a Jami e a Bibi para dancar!!! Demais! Um grupo de musicos tocou a noite inteira e tinham narguiles por todos os cantos.

os preparativos

A noiva

A festa

Quando madrugamos para pegar transporte a musica ainda estava rolando, e ainda teria mais um dia de festa ate o noivo chegar para buscar a noiva. As festas sao separadas.

Sabiamos que a viagem seria longa, mas foi ainda mais demorada que o esperado. No total acho que passou das 17 horas viajando pelos Himalaias, passando pelas milhares de curvas, no topo de altissimos passes com vistas espetaculares. Paramos em Kargil, cidade bem proxima a linha de controle, onde os paquistaneses invadiram a pouco tempo, mostrando que os milhares e milhares de soldados indianos talves nao estejam tao preparados quanto pensam. Na estrada varios acampamentos do exercito, muitos deles fazendo treinamentos de escalada nas montanhas. Saindo da regiao da caxemira entramos em Ladak. A paisagem ia ficando mais desertica, pois estavamos cada vez mais altos. As bandeirinhas de oracoes budistas passaram a aparecer por tudo que ‘e lado, e as vilas estavam cheias de estupas e monges. Paramos em algumas delas, e gostariamos de ter podido ficar mais tempo por ali. Chegamos ja bem tarde em Leh, e por acaso acaso acabamos ficando numa pousada super bacana. Tinha um jardim todo florido com vista para as montanhas de um lado, e para monasterios e fortes do outro.

A caminho de Leh

Leh fica a mais de 3500 metros de altitude. Confesso que devido a dificuldade para chegar, esperava um lugar mais intocado. Sabia da fama do lugar entre os viajantes, mas nao esperava tantas lojas uma perto da outra e restaurantes vendendo pizza e comida ocidental. No meio de tudo isto muitas internets cafes. Por outro lado, a energia eletrica faltou com muita frequencia, mostrando que ainda existe um certo isolamento.

Chegamos para o ultimo dia do festival de Ladakh, onde teria musica, danca, alem das apresentacoes com mascaras. A partida de polo tinha sido ha dois dias, e perdemos novamente. O final do festival, mostra o termino da temporada. A partir de agora, pode nevar nos passes mais altos. Os viajantes overland saem as pressas sentido Manali (22 horas de estrada terrivel), e era para Leh estar tranquila. Mesmo assim acho que vimos mais turistas do que monges.

Na cidade tem um bonito palacio real, um forte com uma super vista para o vale, alem de uma cidade velha e diversos monasterios, mas o mais interessante mesmo esta nos seus arredores.

Partimos para as montanhas, caminhando entre vales e bonitas formacoes rochosas, atravessando rios ate a vila de Rumbak. Uma vila de nao mais que 12 casas e um monasterio. Muitas plantacoes, yaques, e um grande espirito comunitario. Regiao muito bonita, um vale realmente especial. Passamos a noite numa das casas, fomos super bem recebidos. Aproveitamos um monte o lugar, mas na hora de seguir viagem fui voto vencido. Seriam mais 8 horas de caminhada, desta vez passando a 5 mil metros de caminhada. Acabamos voltando pelo mesmo caminho, e encontramos um casal de espanhois viajando com seu filho de 3 anos. Iam fazer um treking de 25 dias!! Ja era o oitavo pais que o moleque conhecia, e sempre ia caminhando, com seu oculos espelhado e todo animado. Pra quem acha que nao da para viajar com crianca ta ai:

Quem disse que nao da para viajar com crianca

 

A tal da Delhi-belly acabou atrapalhando nossos planos. Nao conseguimos explorar tanto a regiao como gostariamos, mas fizemos o que pudemos. Se tinhamos chegado um dia depois da partida do nosso amigo Koich, por outro lado acabamos encontrando novamente os franceses la do Paquistao.

Depois de tantos meses viajando pela rota da seda (que tambem passava por aqui), pegamos o primeiro aviao. Daria para seguir por terra, mas isto mostrava que o tempo estava acabando, e nossa viagem tambem. No pequeno aeroporto parecia uma operacao de guerra, com centenas de soldados, burocracia e seguranca. O voo foi rapido, com uma super vista de montanhas pela janela.

Em Delhi decidimos nao ficar no Pahaganj, barulhento “camelodromo” onde fiquei nas outras viagens. Ficamos no Manju ka tilla, bairro tibetado, um pouco mais afastado mas bem mais calmo.

Como era a primeira vez da Jami em Delhi, fomos em diversos lugares, muitos deles que eu so tinha ido na minha primeira viagem a India em 2005. Foi muito legal, ate porque hoje sou uma pessoa diferente, e vejo os mesmos lugares de forma diferente. Sem contar que e muito legal a cara de alguem que esta andando de rickshaw pela primeira vez pelas ruas de Old Delhi. Comemos no indicado restaurante Karim, fomos ver filme em hindi e nao demorou ate nos despedirmos da Jami. Ela foi uma super companheira de viagem, pegou bem o espirito da coisa.

old Delhi

Ja estava chegando nossa hora tambem, mas depois de tanto viajar, acho que mereciamos umas ferias da viagem, um pouco de “descanco”. Se a rota da seda tinha chegado ao fim, tinhamos que pensar em alguma outra coisa…

Jula, Jula, Pakistan!!

Rawalpindi fica ao lado da moderna capital Islamabad. Rawalpindi ‘e a parte movimentada, viva da cidade. Rodamos os bazars, tentamos visitar o local onde pintam os caminhoes, mas estava tudo fechado. Era o ultimo dia de Ramadan. Se todos iam festejar, nos tambem fomos. Pegamos um autoricksha ate Islamabad. Cidade planejada, com avenidas largas e rapidas. Bem estilo Brasilia. Alguns bairros com muitos casaroes mostravam a parte rica do Paquistao, que ainda nao tinhamos conhecido. Demoramos um pouco para achar a casa de carnes que procuravamos, mas valeu a pena. Estava muito bom!!! Demos uma volta pelo shopping, que era todo no terreo, todo espalhado. Na volta passamos para ver a mesquita Sha Faisal toda iluminada e pegamos um engarrafamento interminavel. Tava todo mundo na rua, tinha iniciado o Eid al-Fitr, feriado depois do Ramadan, onde se come durante dias!

Cabine do caminhao

Mesquita sha Faisal

Ficamos receosos de nao conseguir transporte para Lahore neste periodo, mas acabou dando tudo certo. Nao foi com a melhor companhia de onibus, mas na beira da estrada conseguimos parar para comer alguma coisa. A estrada nao era boa, era excelente, mas o calor estava infernal. Para ajudar, nada de ar condicionado nem das janelas abrirem.

Chegamos facil no hotel que pretendiamos ficar, mas era um pulgueiro. A segunda opcao estava fechada e depois de bater bastante a cabeca, acabamos apelando para o “eu mereco”. Pegamos um hotel bom, numa regiao mais tranquila, e que acabou nem saindo tao caro. Ok, para os precos que estavamos pagando era caro, mas em reais ainda era bem barato. Se para mim o “eu mereco” nao cola, o “paguei para minha tranquilidade” me consola haha!!!

Acabou sendo um refugio. Tava muito quente, e com o feriado, as ruas estavam lotadas. Fomos no belo forte da cidade, na imponente mesquita Badshahi. Falamos com muitas pessoas, e tiraram bastante fotos de nos. Chegamos perto da mesquita Wazir Khan, no meio de uma confusao com autorickshas, carros, cavalo, camelo e criancas brincando e muitos vendedores. Musica alta, businas, um verdadeiro caos. Todos queriam correr para o hotel, mas ainda me acompanharam para ver a decadente, mas muito bonita mesquita. Tambem nos surpreendeu o numero de igrejas em Lahore. Muitos cristaos vieram farar com a gente e dizem ter uma vida super tranquila. O conflito entre Sunistas e Xiitas e bem maior que o de Muculmanos e Cristaos.  Em Lahore tem o bairro descolado de Gulberg, que no fim das contas acabamos nao indo, mas quem quer um restaurante tipico simples mas muito bom, recomendamos o Tabaq, que passou no teste com louvor!!!

Forte de Lahore

Mesquita Badshahi

mesquita Wazir Khan

Um programa que nao podia faltar era ver a retirada da bandeira na fronteira com a India. Eu e o Marco compramos camisetas da selecao de cricket especialmente para a ocasiao. A fronteira nao fica longe, mas com o feriado tava todo muno na rua, entao demorou bastante. Chegamos e as arquibancadas estavam lotadas. Homens para a direita, mulheres para a esquerda. Como estrangeiros teriamos acesso a tribuna de honra. Entramos pela rua, entre as arquibancadas, como se fosse uma passarela. Quando fomos notados a multidao foi se levantando, todos com sorrisos no rosto, gritavam aleatoriamente e tiravam fotos. Quase simultaneamente o Marco tascou um beijo na camiseta do Paquistao e eu acenei para a galera levantar. O barulho foi ensurdecedor, parecia um gol na final de campeonato. AaaAAAAAHHHHH!!!! Com o braco para cima e punhos cerrados, puxamos um Pakistan, Pakistan que ecoou por minutos. Os indianos do outro lado do portao nao entendiam o que estava acontecendo, pois o show ainda nao tinha comecado. Logo vieram os “Pakistan, zindabad!” (vida longa ao Paquistao).

Torcida masculina

Torcida feminina

Logo iniciou o desfile, os gritos e provocacoes. Ano passado tinha visto do lado indiano da fronteira (Clique aqui), e comentei que estava chateado de nao seguir por terra para o Paquistao e Ira. Mal eu imaginava que faria o caminho contrario (na verdade um pouco mais longo) e colocaria estes dois paises na lista dos meus favoritos.

Se na India achei o show um pouco longo, este participamos como verdadeiros paquistaneses. As diferencas do show em si sao bem pequenas. Basicamente do lado indiano tem dancas, e no paquistanes animadores de torcida e tambores. Com o final da cerimonia, filas de pessoas se formaram para falar conosco e tirar fotos. Fomos celebridades muito simpaticas e atenciosas, atendendo a cada pedido. So os pedidos de homens tirarem fotos com a Bibi eram negados. Eu sempre falava rindo, voces deixariam eu tirar fotos com a tua mulher, irma ou mae haha?! O guarda teve que pedir para sairmos, pois so estavamos nos e nossos “fas”. No caminho ate o carro a cena se  repetiu dezenas de vezes, e familias inteiras pediam para tirar fotos. Com o feriado muitas pessoas de pequenas vilas ou cidades distantes estavam ali. Encontramos com os franceses e acabamos indo jantar juntos. Tivemos discussoes calorosas sobre o respeito a cultura local e diferencas entre ocidente e oriente.

Pakistan!

Volta para Lahore

posamos para fotos e mais fotos

Na manha seguinte acordamos cedo e fomos para a mesma fronteira. Desta vez nao para ver nada, mas para atravessar para a India. Nao tinha uma alma, estava completamente vazia. Isto nao fez com que o processo fosse agilizado. No balcao um jornal dizia que tres soldados paquistaneses tinham sido mortos sem motivo em uma das fronteiras com a India. A relacao entre os dois paises realmente nao e nada amigavel. Caminhamos entre as arquibancadas vazias, nos despedimos de soldados que participaram da cerimonia no dia anterior, mas que estavam cumprindo o dever naquele dia.

Do outro lado nao foi mais rapido.  Nao que tenha demorado um monte, mas nao tinha niguem, poderia ter sido mais rapido. Saindo da imigracao ofereceram uma cerveja e o Marco aceitou, pois estava ha um mes sem beber nada . Na verdade em Lahore um senhor deu alguns copos de wiskey (ilegal, portanto carissimo) para ele depois de um papo rapido na rua. O rapaz da cerveja voltou, e cobrou tres vezes o preco oficial marcado na garrafa. Caiu a ficha, estavamos na India!

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